Mitos Modernos é
uma seleta de contos, HQ e ilustrações que apresentará sete mitos folclóricos brazucas
em roupagens totalmente novas. Com organização deste que vos escreve, o livro será
lançado em breve pela Llyr, selo fantástico da Editora Vermelho Marinho.
A partir de hoje
vou falar um pouco sobre cada um dos contos revisitados, seus respectivos autores,
trechos das histórias, além de mostrar uma arte exclusiva criada pelo máster José Rafael Narchi.
Pra abrir os
trabalhos, apresento-lhes o lobisomem-guará mais boa praça das redondezas,
criado pelo não menos boa praça Felipe Castilho.
O Mito
O protagonista
de A Inexistência do Inferno é
bastante familiar para aqueles que acompanham a série O Legado Folclórico. Segundo
Felipe Castilho, “Chris é um lobisomem-guará que foge um pouco da regra de
licantropos cinzentos, europeus e com sede de sangue. Por ser uma das
personagens mais queridas pelos leitores de Ouro, Fogo & Megabytes, resolvi
contar uma história em que todos os holofotes recaíssem sobre ele — e sobre seu
passado, que em nenhum momento é explorado no primeiro livro”.
A personagem não
tem esse nome por acaso. “Eu assim o batizei por causa da nomenclatura binomial
dos guarás, Chrysocyon brachyurus.
Legal, né?”. Sobre a segunda criatura que aparece no conto, Castilho optou por ater-se
ao mito original: “basicamente é uma lenda para fazer com que crianças malcriadas
obedeçam aos pais, com medo de que a monstrenga as devore como punição pelo seu
mau-comportamento”. E complementa: “Toda cultura tem o seu bicho-papão, e a
Cabra Cabriola já foi o de muitos. Mas não o meu. Na minha época, era o Fofão”.
O Autor
Felipe Castilho
é autor de livros e contos infantis, juvenis, adultos e esquisitos. Escreveu
Ouro, Fogo & Megabytes [Gutenberg, 2012], primeiro volume da série O Legado
Folclórico. Enquanto digita esta minibiografia com uma mão, usa a outra para
terminar Prata, Terra & Lua Cheia, aguardada continuação da saga do
herói/nerd Anderson Coelho que tem uma grande ligação com a história contida nesta
coletânea. Twitter: @felcastilho
O Conto
Trecho de A
inexistência do Inferno, de Felipe Castilho.
“Chris. Tio
Chris, na verdade.
Apesar de não
ter cara de tio, era assim que as crianças chamavam o jovem motorista daquele
ônibus escolar amarelo que era quase um clichê sobre rodas. Em outras ocasiões,
quando não estava fazendo bicos, o rapaz dirigia uma van verde, o único meio de locomoção motorizado da Organização –
grupo comandado pelo velho Saci, que ao mesmo tempo era sua casa, um orfanato e
uma ONG nada convencional que combatia criminosos ambientais. Em especial, um
certo empresário megalomaníaco que pretendia conseguir mais poder através de
formas inescrupulosas.
Christiano tinha
cabelos castanhos bagunçados, que faziam os pimpolhos simpatizarem com ele logo
de cara. Pois crianças são caóticas por natureza, enquanto os adultos não lhes
enfiam a ordem goela abaixo. Chris também tinha olheiras, que se fossem um
pouco mais profundas poderiam fazer com que os pequenos simpatizassem ainda
mais. Seria o Tio Panda. Mas estava quase lá.
As causas de
suas olheiras eram duas – uma simples, e outra nada óbvia. Uma: ele tinha
lembranças que afloravam em sua mente toda vez em que ia dormir. Saudades da
família. Das irmãs. Da mãe. E sempre que se deitava no escuro, lembrava da
suave sinfonia do ruído de respiração das seis garotas mais velhas que eram sua
razão de viver. Todas no mesmo quarto que ele, distribuídas nos três beliches,
e a menor dividindo a cama de casal com Estela. Sua mãe.
A segunda causa:
Chris era um lobisomem. Simples assim. Talvez você tenha pensado nisso ao saber
que ele era o sétimo filho homem após seis mulheres, mas essa foi apenas uma
infeliz coincidência. Tinha mais a ver com genética do que com superstição.
Mais ou menos como simplesmente nascer com intolerância a lactose, nascia-se
licantropo.
E aquilo
consumia sua força de vontade, manter a fera interior controlada, trancada no
peito. Mas nem sempre fora simples daquele jeito.
– Olá?
– Opa... oi! –
Chris afastou os cotovelos do volante, endireitando-se no banco e lançando um
sorriso cansado ao único adulto que embarcava no ônibus. – Me desculpe, estava
distraído.
– Percebi! – riu
a moça de óculos e cabelos preso em coque. Bonita, de lábios finos e óculos de
nem tanto bom gosto assim – Sou a professora deles, Nanci. Prazer!
– Oh, sim! –
Chris apertou a mão estendida da professora, empertigando-se – Acho que nunca a
vi entre os professores do colégio. – e acrescentou em um sussurro mais baixo,
pois ser um galanteador descarado não estava na sua lista de qualidades. Aquele
era um atributo de um de seus melhores amigos, Beto, o Boto. – Eu teria me
lembrado...
– Eu também
nunca o vi, mas todos os meus colegas falam que você é muito atencioso com os
alunos. E a agência de motoristas sempre te recomenda. – respondeu ela,
cruzando os braços e franzindo o cenho – Você não é muito novo para dirigir?
Chris gargalhou,
de maneira meio rouca. Quase um latido.
– Garanto que já
passei dos vinte e um, e minha carta de motorista não foi falsificada.
– Oi, tio Chris!
– fez uma garotinha com mochila das Monster’s High, subindo a escada do ônibus.
– Oooi, Tio
Chris – fez um garotinho com mochila do Ben 10, em seguida.
– E aí, Tio
Chris! Tudo certo? – outro, cumprimentando o motorista com um toque especial
finalizado com soquinho.
– Fala, Luís.
Tem se comportado, seu capeta? Nada de chiclete no banco, senão eu te deixo na
estrada. Oi, Dorinha e Tavinho! Tudo bem com vocês?
A professora
Nanci o olhava por sobre os óculos, com um meio-sorriso.
– Bom, vejo que
eles gostam de você. Não vou te denunciar e nem puxar sua ficha, ok?
Chris sorriu
mais uma vez, e fechou a porta automática do ônibus. Todos tinham embarcado.
– Agradeço a
compreensão, professora Nanci.
– Nanci. Pode
chamar só de Nanci. Prometo não te chamar de Tio Chris.
Outra risada
latida, e o ônibus ganhou movimento".