|Mitos Modernos| A moça da mão perfeita, de Gerson Lodi-Ribeiro

Mitos Modernos é uma seleta de contos, ilustrações e história em quadrinhos que dará uma repaginada geral em sete mitos do nosso folclore. Organizado por moi, o livro será lançado em breve pela Llyr, selo das coisas insólitas e fantásticas da Editora Vermelho Marinho.

Esta série de posts está apresentando os mitos | lendas revisitados [que você pode conferir aqui, aqui, aqui e aqui], seus respectivos autores e trechos das histórias, além de artes exclusivas criadas pelo ilustrador José Rafael Narchi.

Entre os sete mitos que você vai encontrar nesta coletânea, a onça-maneta é, sem sombra de dúvida, o menos conhecido e o mais perigoso de todos, uma lenda que ganhou contornos pra lá de fantásticos pelas mãos do mestre Gerson Lodi-Ribeiro.

O Mito
Segundo Gerson Lodi-Ribeiro, a motivação inicial para escrever A moça da mão perfeita foi a mais simples de todas: “queria escrever uma história original sobre uma figura arquetípica do folclore brasileiro que jamais tivesse sido abordada antes em nossa literatura fantástica ou que, se a façanha não se mostrasse de todo possível, pelo menos, que meus parceiros de empreitada na Mitos Modernos não tivessem cogitado abordar”.

A dúvida, porém, foi qual criatura mítica escolher. “Já escrevi histórias sobre lobisomens alienígenas, vampiros científicos e, saindo da ficção científica para o horror, até — clichê dos clichês — sobre lobisomens sobrenaturais. Isto para não falar da onça cabocla [que estaria para as onças como o lobisomem está para os lobos] e até um duelo improvável de uma lâmia com um capelobo”. Esgotadas as opções consideradas mais óbvias quanto a qual monstro inédito escolher, o jeito, conclui o autor, foi apelar ao bom e velho Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo. “O relato sobre a onça-maneta foi a primeira e última inspiração para a criatura que apresento em A moça da mão perfeita, um conto ambientado numa linha histórico-mitológica em que a cidade do Rio de Janeiro tornou-se uma nação soberana, independente do Império do Brasil, graças ao apoio de metamorfos de diversas estirpes; tema que já abordei noutra história e que talvez aborde de novo num futuro próximo ou distante”.

O Autor
Gerson Lodi-Ribeiro publicou duas noveletas na versão brasileira da Asimov’s: a FC hard Alienígenas Mitológicos e a história alternativa A Ética da Traição, que abriu as portas do subgênero no fantástico lusófono. Foi finalista do Sidewise Awards [2000] com o conto Xochiquetzal e é autor das noveletas premiadas O Vampiro de Nova Holanda [Prêmio Nova, 1996] e A Filha do Predador [Nautilus, 1999 — publicada na Sci Fi News Contos], das coletâneas Outras Histórias..., O Vampiro de Nova Holanda, Outros Brasis e Taikodom: Crônicas, e dos romances Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas [História Alternativa, Draco, 2009] e A Guardiã da Memória [FC Erótica, Draco 2011 — Prêmio Argos 2012].  Presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica nos biênios 1999-2001 e 2001-2003 é editor das antologias Phantastica Brasiliana, Como Era Gostosa a Minha Alienígena!, Erótica Fantástica 1, Vaporpunk, Dieselpunk e Solarpunk..

O Conto
Trecho de A moça da mão perfeita, de Gerson Lodi-Ribeiro.

“— Vamos numa taça de espumante, tigrão?

— Mais tarde, quem sabe. — Coimbra corresponde ao sorriso convidativo da ruiva de vestido curto que acaba de aboletar na banqueta ao lado. Uma atendente que também faz às vezes de bargirl aparece com a garrafa dentro do balde, deixando-a no balcão, em frente à recém-chegada. Olhando de relance, a ruivinha até parece humana.

Não para Coimbra, é lógico. Pois, ao detectar a presença de ferormônios licantrópicos à entrada do Dyonisus, ativou seus sensores e equipamentos de alta tecnologia já e passou a vasculhar a penumbra aromatizada do salão em modo automático. Em questão de segundos, captou assinaturas olfativas inconfundíveis, constatando que o ambiente discreto deste bar requintado não era tão inofensivo quanto parecia. Inaugurado há menos de dois anos no centésimo sétimo piso da torre norte do Centro Maurício de Nassau, o Dyonisus não levou três meses para se tornar um point da moda entre os cariocas abastados e estrangeiros residentes na República da Guanabara. O problema é que o estabelecimento não é só um barzinho chique em que o republicano afluente vem esbanjar seu dinheiro com o intuito precípuo de ver e ser visto. É também um ponto focal de aventureiros, um território neutro, por assim dizer, onde operativos imperiais travam duelos de astúcia com contraespiões guanabarinos.

Neste ambiente exclusivo, Dom Diogo Antônio Luís Alves Ribeiro Macedo de Coimbra não ousa posar como Marquês de Belvedere, membro de uma das famílias aristocráticas mais ricas e influentes do Império do Brasil. Aqui responde apenas por “Coimbra”, oficialmente um plebeu, mas herdeiro de um grande industrial brasileiro, um sujeito endinheirado com fama de femeeiro, disfarce perfeito para um operativo da inteligência imperial atuante como agente infiltrado e, mais do que isto, um caçador de monstros.

Monstros. Anomalias genéticas. Predadores ou simbiontes, ou seja, numa palavra: metamorfos. Coimbra possui dezessete abates confirmados em seu currículo. Quinze desses abates se deram na Guanabara. Onze das criaturas terminadas eram licantropos.

Anomalias em tudo semelhantes a essa lobisomem fêmea mimetizada em forma humana que lhe dirige um olhar provocante da banqueta ao lado. Ou ao casal de tritões enrodilhado num amplexo lascivo na pista de dança. A sereia nem sequer se dá ao trabalho de ocultar o começo da metamorfose, as panturrilhas torneadas já fulgem no padrão de escamas minúsculas característico. Menos mal. O exibicionismo barato muito provavelmente significa que o casal Homo amphibius é tão inofensivo quanto aparenta. Já a ginolicantropo é outra história. Trata-se de uma contraespiã há muito catalogada nos bancos de dados da inteligência imperial: Amanda Winiarski, cidadã da Guanabara desde a guerra de independência contra o Império, quase dois séculos atrás.

Não fossem esses malditos batalhões de irregulares metamórficos, o Império já teria reconquistado o Rio de Janeiro há tempos!

— Tem certeza de que não quer me acompanhar no espumante?

— A contraespiã disfarçada de cortesã ergue a taça, brindando o brasileiro com uma piscadela marota através do fio de perlage. — Porque, como diz o velho ditado: uma garrafa é demasiado para uma garota sozinha.

— Para uma garota crescida e saudável como você? — Coimbra arreganha um sorriso zombeteiro. — Garanto que dará conta do recado. — Varre o rótulo da garrafa que descansa dentro do balde de cristal repleto de água e gelo. Franciacorta da melhor estirpe. Pelo visto, a Guanabara não está poupando recursos no propósito de enredá-lo em sua teia. — Mesmo sob forma humana.

— Quem foi que lhe disse que eu não sou humana?

— Meus sensores, querida.

— Nada como a velha e confiável tecnologia imperial.

— É isto aí, lobinha. — Coimbra não nutre rancor especial algum contra Amanda. Pelo menos, não hoje. A ginolicantropo não representa ameaça imediata aos interesses do Império, ele não recebeu a missão de terminá-la e, além disso, está de folga.

— Não me chame assim. — A moça pousa a flute no tampo do balcão. Suspira fundo. Quando volta a falar, expressa-se com voz rouca e sensual. — Mesmo supondo que eu fosse uma metamorfa, por que tanto preconceito? Eles também são gente como nós, não são?

— Poupe-me desse discurso pseudoliberal. — Coimbra digita o código para um copo de sua caipirinha favorita. — Esse papo de Darwin, A Origem das Diversas Espécies Humanas, evolução paralela e outras sandices do gênero. Negativo, moçoila. Vocês não são gente. Pelo menos, não são gente como a gente”.

Arte: Onça-maneta, por José Rafael Narchi.

|Mitos Modernos| O Peão e a Mula, de Walter Tierno


Mitos Modernos é uma seleta de contos, HQ e ilustrações que trará sete mitos folclóricos nacionais em roupagens totalmente novas. Organizado por moi, o livro será lançado em breve pela Llyr, braço fantástico da Editora Vermelho Marinho.

Nesta série de posts, você vai ficar por dentro de cada um dos contos revisitados, conhecer seus respectivos autores e degustar trechos das histórias, além de ver em primeira mão uma arte exclusiva criada pelo ilustrador José Rafael Narchi.

Com o perdão do trocadilho, hoje a coisa vai literalmente pegar fogo. A história fica por conta do Walter Tierno e a personagem folclórica é nada menos que a boa e velha mula-sem-cabeça.

O Mito
Segundo Walter Tierno, quando o desafio para escrever um conto para a coletânea Mitos Modernos lhe foi apresentado, a escolha da criatura sobre a qual queria falar veio antes de qualquer história. “Para ser honesto, a história só surgiu um bom tempo depois, quando eu já estava me arrependendo da escolha”. A ideia foi colocar um caminhoneiro em rota de colisão com a mula-sem-cabeça, fato que o levou a ficar dias nessa estrada. “Padre João, personagem que apresentei em meu livro Cira e o Velho, veio em meu auxílio”, conta.

Tierno, no entanto, salienta que a história de paixão entre o peão Roberto e a Ruiva não tem qualquer intenção de defender rodeios ou outro tipo de entretenimento que utiliza animais como simples objetos de cena. “Este conto é sobre paixão, mas também é sobre abandono, descaso e covardia”, conclui.

O Autor
Walter Tierno é um jornalista que nunca trabalhou com isso e um ex-publicitário que nunca estudou publicidade. Técnico em artes gráficas, é ilustrador e escritor. Seu primeiro livro é Cira e o Velho [Giz Editorial, 2010], uma fantasia histórica que se passa no Brasil colonial. Também tem alguns poucos contos espalhados por aí, umas ilustrações e, em breve, um segundo livro. Mora em São Paulo com a esposa, filha, dois gatos e uma gata. Às vezes, um fantasma os visita, mas eles não acreditam nele.

O Conto
Trecho de O Peão e a Mula, de Walter Tierno.

“A ruiva do posto.

Roberto está há vinte e nove horas sem dormir. Dez sem comer. Sete sem se aliviar. A bexiga pulsa a cada solavanco e as entranhas latejam entre espasmos que o fazem pensar se não teria algum animal agonizando na barriga. A cicatriz que sobe do meio da coxa até a lateral direita da barriga repuxa. Ele solta gazes, vez por outra, para diminuir o desconforto, mas o único efeito é levar a atmosfera da cabina à beira do irrespirável.

Ele deveria parar para forrar o estômago, esvaziar as tripas e descansar os olhos, mas onde? Fez a burrada de se meter nessa estrada que nunca tinha visto e que o está levando a algum fim de mundo do qual ele sequer sabe o nome. Nada a vista. Nem um mísero casebre. Só mato. A estradinha, muito bem conservada, é a única pista de civilização.

Roberto toma um comprimido atrás do outro. Tudo por uma maldita ruiva. Por que acreditou na conversa da desgraçada? Ele sabe a resposta. É fraco. As mulheres serão sua perdição, disso ele tem consciência.

– Mas que coisa, Biriba – fala com o siri imortalizado em acrílico que enfeita a alavanca do câmbio. – Onde a gente tá, rapaz? Aquela mulher me danou direitinho – e dá uma risadinha contida, para não aumentar a dor na barriga. Não está maluco. Fala sozinho para espantar o sono. Aprendeu a fazer isso com o Paçoca, quando ainda eram amigos. Paçoca viajava com a família inteira, mas quando estavam todos dormindo e ele ao volante, não podia ligar o rádio. Então, conversava baixinho com um cachorrinho de plástico, desses que a cabeça fica balançando, grudado no painel, à esquerda.

Roberto viaja sozinho e poderia ligar qualquer um dos rádios, mas um está quebrado. O outro, transmissor, está desligado. Não quer falar com nenhum colega agora.

– Mas você não pode me culpar, né, Biriba? Ela era uma coisa de louco...

Ainda consegue sentir o gosto dos lábios da ruiva, seu cheiro, seu toque. Um encontro que não durou mais do que duas horas. Pareceram anos.

Foi na última parada que fez antes de entregar a carga. Um posto grande, ajeitado. Mercado, banheiro com chuveiro e restaurante. Não tinha preços muito atrativos, mas, diferente da maioria dos colegas, Roberto é solteiro e anda em caminhão quitado. Pode se permitir alguns luxos.

Estava mandando bala numa feijoada no restaurante quando sentiu os olhos dela, cinco mesas à direita. Em troca, ofereceu-lhe um sorriso. Correspondido, aproximou-se. Pensou que fosse mulher da vida. Moça bonita desse jeito em posto de beira de estrada e flertando com caminhoneiro, que mais poderia ser? Em quinze minutos de conversa, percebeu o engano. Ou se deixou convencer. Até agora, não decidiu qual. Sabe apenas que se apaixonou. Mulheres serão sua perdição, ele sabe.

Para impressionar a moça, contou vantagem, falou do tempo que era peão e ganhava prêmios em rodeios. Os olhos dela brilharam.

– Desistiu? Por quê? – ela perguntou, nitidamente interessada.

– Um boi bravo. Me jogou pro alto e aparou com o chifre. Me abriu daqui – apontou a barriga – até o meio da perna. O médico que me costurou disse assim: “Você tem muita sorte. Não pegou a artéria”. Eu falei: “Doutor, se eu tivesse sorte, o senhor não estaria aqui me costurando”.

Ela riu. E que sorriso lindo.
– E você? Faz o que da vida?

– Sou professora do fundamental, numa cidadezinha aqui perto.

– E o que uma professora está fazendo num posto cheio de homens feios como este?

– Não é o que você está pensando.

O rosto de Roberto ficou vermelho instantaneamente. Ela amenizou a vergonha dele com um riso conciliador e acariciou seu rosto. O caminhoneiro sentiu as pernas derreterem. A mão da ruiva era quente e macia”.

Arte: Mula-sem-cabeça, por José Rafael Narchi.

|Mitos Modernos| A Esfera de Água, de Simone Saueressig


Mitos Modernos é uma seleta de contos, HQ e ilustrações que trará sete mitos folclóricos nacionais em roupagens totalmente novas. Organizado por moi, o livro será lançado em breve pela Llyr, braço fantástico da Editora Vermelho Marinho.

Nesta série de posts, você vai ficar por dentro de cada um dos contos revisitados, conhecer seus respectivos autores e degustar trechos das histórias, além de ver em primeira mão uma arte exclusiva criada pelo máster José Rafael Narchi.

Hoje apresento a vocês o famigerado Bando de Três e uma personagem fantástica trazida direto das águas do Amazonas pela escritora Simone Saueressig: o Boto.

O Mito
Ao sentar para escrever o conto para a coletânea Mitos Modernos, Simone Saueressig conta que imediatamente lembrou-se da escadaria do Palácio do Ipiranga, em São Paulo. “Fazia tempo que eu queria escrever uma história sobre os globos de água ali expostos”. Logo surgiu o Iporanga, um garoto esperto e bacana, com um sorriso sedutor: um autêntico boto. “Não posso deixar de agradecer ao Felipe Castilho, que abriu mão da personagem folclórica [sobre o qual também queria escrever], e deixou espaço para que eu contasse essa história. Obrigada!”, completa.

Sobre a experiência de retratar esse mito, Simone diz que não teve dificuldades: “O Boto é uma personagem que mora nas águas dos rios e à noite sai de lá transformado num belo rapaz, disposto e namorador. Na verdade, é uma personagem muito rica e, sendo praticamente atemporal, ficou fácil modernizá-la. O Boto, hoje, passa mais do que uma mensagem romântica: ele pode ser uma importante personagem para falar sobre a ecologia e a condição dos nossos rios”.

A Autora
Simone Saueressig nasceu em Campo Bom [RS], em 1964. Estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do fantástico, como A Noite da Grande Magia Branca [2007], A Fortaleza de Cristal [2007], A Estrela de Iemanjá [2009], A Máquina Fantabulástica [1997], e o livro Contos do Sul [2012]. Participou de diferentes antologias, como Duplo Fantasia Heroica 3 [2012[, Autores Fantásticos [2012] e Ficção de Polpa: Aventura! [2012]

O Conto
Trecho de A Esfera de Água, de Simone Saueressig.

“Ladeira do parque do Museu do Ipiranga, perto das 18:30h. Hora mágica para o Bando de Três: Ciça, Lu e Palito. Hora de deixar as mochilas no “esconderijo secreto” de um tronco de árvore e, com elas, as notas baixas em geografia e português e o olhar irônico do professor de matemática. Hora de acertar os bonés com as abas para trás, ajeitar as joelheiras e as luvas e esquecer o mundo. E deslizar feito um sonho em um skate.

Sonho com hora marcada para começar e terminar, mas nem por isso menos sonho.

Lu, baixinho, gorducho, a pele cor de jambo, os olhos escuros e brilhantes, o cabelo negro duro de tanto gel, fazia mais o freestyle. Palito, alto, magro, sardento, não podia ver um corrimão que se ouriçava todo. Muitas vezes, também se estourava todo. Mas não desistia, teimoso como só. Ciça não fazia estilo algum. Subia na prancha e impulsionava-se para frente, deixando o corpo sentir a brisa do movimento, e, depois, quando o caminho à frente se mostrava vazio, abria os braços devagarinho, o sorriso apontando para o céu, como se voasse. Só então é que pegava impulso, gingava, pulsava, girava, bancava a moleca. E todo dia era assim.

Mas não por muito mais tempo.

Lu ia mudar de escola e Palito queria ir morar com a mãe em Canoas, no Sul do Brasil. Ciça não gostava sequer de pensar nisso; dava-lhe vontade de chorar feito uma menininha babaca. Os três tinham crescido juntos, ido à mesma escola, brigado com os mesmos valentões, gritado o mesmo “gol”, aprendido a andar de skate no mesmo skate, o do Lu, um troço velho e quebrado que tinha rendido muitas cicatrizes.
Amizade se faz assim. Não queria pensar no dia de amanhã. Não queria pensar em perder os amigos.

Nenhum deles falava sobre isso. E, sobretudo, quando estavam sobre os skates − agora que cada um tinha o seu − não falavam sobre isso.

Aquele parecia um fim de tarde qualquer. Tinha chovido muito mais cedo e a TV trouxera imagens da tradicional tranqueira da Marginal Tietê. Os córregos da capital paulista estavam cheios e o asfalto, molhado. Liso, deslizante. Bem como o Bando de Três gostava. Não conheciam muita gente que se metia a fazer o que faziam quando o asfalto estava molhado, mas eles curtiam. Claro, tinham de evitar as poças. Mas quem, fora os meninos do terceiro ano, gosta de poças? Além do mais, ali não havia poças. Talvez uma água parada junto ao meio-fio − chovera muito mesmo −, mas só. Mas o bastante para o Palito fazer bobagem, é claro.

Ele resolveu desafiar os limites, deslizando o tail sobre o meio-fio baixinho da ladeira e roçando as rodinhas da frente na água parada. E não deu outra: calculou mal a altura, a rodinha cortou a superfície, mergulhou, trancou o movimento e ele voou para frente, conseguindo, no último momento, dar um passo e se jogar sobre o gramado, escapando por pouco de se ralar no asfalto.

Lu parou com um grito e uma risada. Ciça girou sobre o ombro e com um único olhar viu que ele estava bem. E foi justamente aí que ouviram um silvo agudo e curto. Depois, surgido das árvores quase ao lado, um garoto apareceu e correu para Palito, rápido, certeiro; passou pelo garoto que se levantava devagar, deu um piparote na aba do boné e o fez voar em rodopios pelo ar cinzento, feito um catavento.

− Ei! − gritou o menino, levando as mãos à cabeça. O desconhecido deu uma risadinha marota, um salto e agarrou o boné ainda no ar, enterrando-o com força na cabeça antes mesmo de tocar o chão. Palito subiu no skate e saiu em disparada atrás dele”.

Arte: Iporanga, em sua forma de boto, por José Rafael Narchi.

|Mitos Modernos| Toda Menina Baiana, de Antonio Luiz M. C. Costa


Mitos Modernos é uma seleta de contos, HQ e ilustrações que trará sete mitos folclóricos nacionais em roupagens totalmente novas. Organizado por moi, o livro será lançado em breve pela Llyr, braço fantástico da Editora Vermelho Marinho.

Nesta série de posts, você vai ficar por dentro de cada um dos contos revisitados, conhecer seus respectivos autores e degustar trechos das histórias, além de ver em primeira mão uma arte exclusiva criada pelo máster José Rafael Narchi.

Depois do Chris, o lobisomem-guará do Felipe Castilho, chegou a hora de apresentar a vocês a Babu, nega retada de boa saída diretamente das ladeiras de Salvador graças às letras pra lá de sensacionais do Antonio Luiz M. C. Costa.

O Mito
Toda Menina Baiana traz à modernidade não o candomblé, que é uma religião bem viva e presente no século XXI, mas a mitologia dos orixás. De acordo com Antonio Luiz, a mitologia iorubá “é tão rica e bela quanto a grega ou a nórdica, que inspiram as aventuras de Mulher Maravilha e Thor, mas muito menos conhecida da maioria dos brasileiros”. Ainda segundo o autor, o conto foi uma oportunidade natural de pôr em primeiro plano mulheres negras [que, segundo uma pesquisa recente, foram protagonistas de apenas 3 de 258 romances brasileiros publicados de 1990 a 2004] e explorar a pluralidade de modelos de comportamento oferecidos pela cultura afro-brasileira. “Esta história permite a uma adolescente experimentar com as iabás seis diferentes maneiras de ser mulher, todas igualmente legítimas e potencialmente heroicas, cada uma à sua maneira”, conclui.

O Autor
Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e foi analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de reencontrar sua vocação na escrita, no jornalismo e na ficção especulativa. Além de escrever sobre a realidade na revista CartaCapital, é autor do romance Crônicas de Atlântida: o tabuleiro dos deuses e de dezenas de contos e novelas publicadas pelas editoras Draco, Tarja e agora também Llyr. Twitter: @aluizcosta

O Conto
Trecho de Toda Menina Baiana, de Antonio Luiz M. C. Costa.

“Por receio de ver seu mundo desmoronar outra vez, Babu custou a criar ânimo para sair da cama. Por fim, ela suspirou, levantou-se, vestiu a camisola – naquelas noites quentes ela dormia só de calcinha e nem se cobria com o lençol – e foi descalça tomar café. Como era de se esperar, a cozinha estava agitada. Os turistas tinham acordado cedo para aproveitar a praia e o dia. Viu a tia preparar beiju de cara amarrada e hesitou em dar bom-dia, mas a esperança falou mais alto que o medo.

– Oi, minha tia, tudo bem? Teve notícia de Voinho? – perguntou, ansiosa.

Naná, sobrinha de vô Dinho e de vó Ciça, andava estressada. A crise na família a obrigara a assumir a Pousada Olocum quase sozinha, bem no início da alta temporada. O marido, arquivista da prefeitura, era inútil para aquilo e ela não era do tipo que levava as dificuldades na boa, principalmente se faltava a cozinheira e ela tinha de pôr a mão na massa, literalmente. Mas fez um esforço por sorrir em consideração à menina, que não tinha culpa da situação e já tinha passado por muitas coisas ruins.

– Oi, Babu. Liguei pra Ciça há pouco e ela acha que ele melhorou um pouquinho. O médico diz que, se continuar assim, pode voltar para o quarto amanhã ou depois.

– Ah, que bom! Vai dar tudo certo! – A menina sentou à mesa, cruzou as pernas magras e respirou direito pela primeira vez no dia. O avô, que estava na UTI, era a pessoa de quem ela mais gostava no mundo. O pai tinha ido morar nos Estados Unidos quando ainda era pequena, a mãe morrera de câncer de pulmão. E ainda por cima ela brigara com o namorado logo no começo das férias.

– Tomara... – Sempre se podia contar com a sinceridade de Naná, não com o seu otimismo.

Enquanto conversavam, a menina se serviu de suco de cacau e um beiju de coco com leite condensado. Mais relaxada, ouviu uma música do Gil no som da pousada:

Toda menina baiana tem
Um santo que Deus dá
Toda menina baiana tem
Encantos que Deus dá...”

Arte: Babu, fazendo uso dos poderes de Iansã, iabá dos ventos e das tempestades, por José Rafael Narchi.

|Mitos Modernos| A Inexistência do Inferno, de Felipe Castilho


Mitos Modernos é uma seleta de contos, HQ e ilustrações que apresentará sete mitos folclóricos brazucas em roupagens totalmente novas. Com organização deste que vos escreve, o livro será lançado em breve pela Llyr, selo fantástico da Editora Vermelho Marinho.

A partir de hoje vou falar um pouco sobre cada um dos contos revisitados, seus respectivos autores, trechos das histórias, além de mostrar uma arte exclusiva criada pelo máster José Rafael Narchi.

Pra abrir os trabalhos, apresento-lhes o lobisomem-guará mais boa praça das redondezas, criado pelo não menos boa praça Felipe Castilho.

O Mito
O protagonista de A Inexistência do Inferno é bastante familiar para aqueles que acompanham a série O Legado Folclórico. Segundo Felipe Castilho, “Chris é um lobisomem-guará que foge um pouco da regra de licantropos cinzentos, europeus e com sede de sangue. Por ser uma das personagens mais queridas pelos leitores de Ouro, Fogo & Megabytes, resolvi contar uma história em que todos os holofotes recaíssem sobre ele — e sobre seu passado, que em nenhum momento é explorado no primeiro livro”.

A personagem não tem esse nome por acaso. “Eu assim o batizei por causa da nomenclatura binomial dos guarás, Chrysocyon brachyurus. Legal, né?”. Sobre a segunda criatura que aparece no conto, Castilho optou por ater-se ao mito original: “basicamente é uma lenda para fazer com que crianças malcriadas obedeçam aos pais, com medo de que a monstrenga as devore como punição pelo seu mau-comportamento”. E complementa: “Toda cultura tem o seu bicho-papão, e a Cabra Cabriola já foi o de muitos. Mas não o meu. Na minha época, era o Fofão”.

O Autor
Felipe Castilho é autor de livros e contos infantis, juvenis, adultos e esquisitos. Escreveu Ouro, Fogo & Megabytes [Gutenberg, 2012], primeiro volume da série O Legado Folclórico. Enquanto digita esta minibiografia com uma mão, usa a outra para terminar Prata, Terra & Lua Cheia, aguardada continuação da saga do herói/nerd Anderson Coelho que tem uma grande ligação com a história contida nesta coletânea. Twitter: @felcastilho

O Conto
Trecho de A inexistência do Inferno, de Felipe Castilho.

“Chris. Tio Chris, na verdade.

Apesar de não ter cara de tio, era assim que as crianças chamavam o jovem motorista daquele ônibus escolar amarelo que era quase um clichê sobre rodas. Em outras ocasiões, quando não estava fazendo bicos, o rapaz dirigia uma van verde, o único meio de locomoção motorizado da Organização – grupo comandado pelo velho Saci, que ao mesmo tempo era sua casa, um orfanato e uma ONG nada convencional que combatia criminosos ambientais. Em especial, um certo empresário megalomaníaco que pretendia conseguir mais poder através de formas inescrupulosas.

Christiano tinha cabelos castanhos bagunçados, que faziam os pimpolhos simpatizarem com ele logo de cara. Pois crianças são caóticas por natureza, enquanto os adultos não lhes enfiam a ordem goela abaixo. Chris também tinha olheiras, que se fossem um pouco mais profundas poderiam fazer com que os pequenos simpatizassem ainda mais. Seria o Tio Panda. Mas estava quase lá.

As causas de suas olheiras eram duas – uma simples, e outra nada óbvia. Uma: ele tinha lembranças que afloravam em sua mente toda vez em que ia dormir. Saudades da família. Das irmãs. Da mãe. E sempre que se deitava no escuro, lembrava da suave sinfonia do ruído de respiração das seis garotas mais velhas que eram sua razão de viver. Todas no mesmo quarto que ele, distribuídas nos três beliches, e a menor dividindo a cama de casal com Estela. Sua mãe.

A segunda causa: Chris era um lobisomem. Simples assim. Talvez você tenha pensado nisso ao saber que ele era o sétimo filho homem após seis mulheres, mas essa foi apenas uma infeliz coincidência. Tinha mais a ver com genética do que com superstição. Mais ou menos como simplesmente nascer com intolerância a lactose, nascia-se licantropo.

E aquilo consumia sua força de vontade, manter a fera interior controlada, trancada no peito. Mas nem sempre fora simples daquele jeito.

– Olá?

– Opa... oi! – Chris afastou os cotovelos do volante, endireitando-se no banco e lançando um sorriso cansado ao único adulto que embarcava no ônibus. – Me desculpe, estava distraído.

– Percebi! – riu a moça de óculos e cabelos preso em coque. Bonita, de lábios finos e óculos de nem tanto bom gosto assim – Sou a professora deles, Nanci. Prazer!

– Oh, sim! – Chris apertou a mão estendida da professora, empertigando-se – Acho que nunca a vi entre os professores do colégio. – e acrescentou em um sussurro mais baixo, pois ser um galanteador descarado não estava na sua lista de qualidades. Aquele era um atributo de um de seus melhores amigos, Beto, o Boto. – Eu teria me lembrado...

– Eu também nunca o vi, mas todos os meus colegas falam que você é muito atencioso com os alunos. E a agência de motoristas sempre te recomenda. – respondeu ela, cruzando os braços e franzindo o cenho – Você não é muito novo para dirigir?

Chris gargalhou, de maneira meio rouca. Quase um latido.

– Garanto que já passei dos vinte e um, e minha carta de motorista não foi falsificada.
– Oi, tio Chris! – fez uma garotinha com mochila das Monster’s High, subindo a escada do ônibus.

– Oooi, Tio Chris – fez um garotinho com mochila do Ben 10, em seguida.

– E aí, Tio Chris! Tudo certo? – outro, cumprimentando o motorista com um toque especial finalizado com soquinho.

– Fala, Luís. Tem se comportado, seu capeta? Nada de chiclete no banco, senão eu te deixo na estrada. Oi, Dorinha e Tavinho! Tudo bem com vocês?

A professora Nanci o olhava por sobre os óculos, com um meio-sorriso.

– Bom, vejo que eles gostam de você. Não vou te denunciar e nem puxar sua ficha, ok?

Chris sorriu mais uma vez, e fechou a porta automática do ônibus. Todos tinham embarcado.

– Agradeço a compreensão, professora Nanci.

– Nanci. Pode chamar só de Nanci. Prometo não te chamar de Tio Chris.

Outra risada latida, e o ônibus ganhou movimento".
Arte: Chris, em sua forma de Lobisomem-guará, por José Rafael Narchi.

|Literalismos| Apenas outro poema de guerra!

Olharam-se como se fossem velhos desconhecidos, como se a vida não lhes tivesse sido uma, enquanto o minuto de silêncio se mantinha firme, intacto, um casulo impenetrável em meio à balbúrdia da longa guerra. 

As mãos, trêmulas, acariciaram os rostos suados, sujos de sangue e de dores antigas, e um sorriso de para-sempre surgiu timidamente, como o sol matreiro em dias de tempestade, para depois se alargar mais e mais, até transformar-se na única forma possível de sincero adeus. 

Ficaram assim, unidas as mãos e os sorrisos, pelo eterno correr daquele escasso minuto, solenemente ignorando os gritos e os berros todos, ordens cuspidas aos céus e planos de fuga alquebrados, gemidos de dor e de medo, loucura! 

Há quanto tempo engrossavam as fileiras daquela guerra sem fim? Anos, séculos, uma vida inteira? Quanto já haviam perdido, de espadas em mão e olhos no horizonte, à espera do eterno inimigo que nunca chegava e, uma vez chegado, demorava-se a ir; qual era mesmo a cor dos dias sem luta, da casa que fora sonhada por ambos e que, agora, abandonada nas distantes terras do sul, não passava de recordação que ia morrendo aos poucos? 

Memória. 

Tão avidamente desejada para estes momentos e tão malquerida para outros tantos! 

Um sopro do vento norte, uma voz que os chamava… 

E o minuto, quase eterno, findou-se. 

As mãos soltaram-se, os sorrisos se foram, talvez para sempre. A realidade, munida de seu temido pesar, indesejada, tardia, desceu sobre os céus escuros daqueles dias finais. E sua sombra, sob a forma de um imenso dragão negro, correu ligeira por sobre as hordas de homens e bestas, todos impotentes diante das espadas sem coração ou alma. Espadas, apenas! 

Um centauro passou a galope, grito tão intenso quanto a rudeza dos cascos sobre a relva manchada de dores, os olhos no inimigo próximo, todo negro e prata e escarlate, seguido por uma maré de outros, seus iguais, rumo ao epicentro daquele atroz réquiem final. Ao observá-los, ambos perceberam que também eram, ele e ele, personagens daquela peça cuja encenação se arrastava com os dias vagarosos, e o ato extremo seria o ápice de suas vidas, o momento derradeiro. 

Abraçaram-se! 

Com força, desejo de não mais soltar, como se com tal e qual gesto que perdera, com a guerra, seu caráter corriqueiro, quisessem permanecer unidos, abandonar os deveres e a honra, descumprir o pacto e abster-se do destino final, fugir dali. Para longe, bem longe. 

Contudo, o sonho não era mais possível. O abraço, antes forte, desfez-se em braços pendidos ao lado do corpo, inertes, olhos desiludidos, chama morta. Restou apenas a força da mão, e a espada. 

Lado a lado, cobertos de silêncio, não por haverem esquecido as palavras, mas por tais ardis não serem mais necessários, eles se afastaram dali, do minuto eterno, da antiga vida, e seguiram para o inevitável. 

Acompanhava-os uma criatura bela, de aspecto felino, à direita de um e à esquerda do outro, e, com o único sorriso permitido para aquele momento, incentivou-os a seguir. 

Num átimo, os sons tornaram-se outros, os gestos tornaram-se brutos e a guerra separou-os para sempre, definitivamente! 

Um último adeus, de longe, foi o que restou. E a incerteza de um novo encontro nas distantes terras imortais.

[Conto originalmente publicado no site Quotidianos, em 15/03/2013]. 


|Literalismos| Deco


A primeira vez que ouvi aquele som o chão pareceu sumir debaixo dos meus pés e eu tive que me segurar no corrimão da passarela pra não sair voando. Como quase tudo que é bom, ele começou bem baixinho, igual ao barulho da chuva que a gente ouve lá longe e que só percebe que chegou quando a telha começa a gemer sob os pingos grossos, e foi aumentando e aumentado e aumentando a cada passo que eu dava e a cada nova viela que surgia e a cada porta que ia ficando para trás até se tornar uma coisa que só podia ser a voz da harpa de algum daqueles anjos de quem mamãe sempre falava. Parei no meio da passarela que levava à viela onde se escondia a minha casa e fiquei olhando para o mato ralo sendo lambido pela água suja que escorria pelo pequeno riacho mais embaixo, enquanto o som ia e vinha na minha cabeça. Eu nunca tinha ouvido nada parecido com aquilo. Nunca mesmo! Não era, nem de longe, como o funk que o Xandão botava pra tocar no último volume no seu carro ou como o samba que o Tiziu e os camaradas dele faziam aos sábados no boteco do Seu Tonho. Não que eu não gostasse do funk do Xandão ou do samba do Tiziu e dos camaradas dele, não era isso, mas é que a primeira coisa que pensei quando consegui botar os pés de novo no chão foi que aquela música não era desse mundo, pelo menos não dessa parte aqui, essa imensidão barrenta e cinza que rodeia a gente. Era uma melodia que parecia vir de todo canto e de canto nenhum, como se cobrisse a vila inteira, do Morro dos Cabritos à Marginal do outro lado, do velho barraco do Seu Noca, espremido lá nos cafundós, aos pequenos condomínios que avançavam contra a favela, uma coisa tão forte e tão presente que parecia fazer todos os outros sons emudecerem. Se não era música feita por um anjo, era de alguém com boas chances de se tornar um. Atravessei o resto da passarela e corri pra casa, desviando aqui e ali das poças formadas pela chuva forte da noite anterior, virei à esquerda no sobrado da Dona Zefa e parei de repente, uma ideia tomando forma na minha cabeça. Encostei o ouvido na porta da casa da Ceça e fiquei lá, tentando ouvir qualquer coisa que fosse. Se tinha alguém que sempre aparecia com novidades, esse alguém era a Ceça, mas tirando o novo cartaz que ela tinha pendurado na porta, uma coisa horrorosa onde se lia Manicure & Pedicure - $ 10,00, não vi ou ouvi nada que indicasse que o som vinha dali. Voltei pra viela e continuei caminhando até chegar em casa, e era como se aquela melodia saísse de cada pequenino canto do barraco, das frestas ocultas entre as tábuas da parede, do anão meio vesgo que enfeitava nosso jardim imaginário, da caixa de correio em forma de castelo que nunca recebeu uma carta sequer... Abri o portão e, com os olhões esbugalhados, percebi que a cada novo passo que eu dava o som parecia se tornar mais forte. Puxei o trinco bem devagar, com receio de sei-lá-o-quê eu pudesse encontrar atrás da porta, e a claridade repentina deu lugar a uma figura magricela e bem conhecida, uma silhueta escura balançando para lá e para cá contra o vão da janela enquanto movia alguma coisa sobre os ombros. Entrei em silêncio, joguei a bolsa num canto e me encostei à parede, a um braço de distância da minha mãe que, igual a mim, parecia embasbacada com o som que saía do que quer que fosse que o Deco tava tocando.

O Deco é três anos mais velho que eu e a coisa mais próxima que eu tenho de um super-herói. Não um desses super-heróis com capa e poderes e nada disso, mas alguém de carne e osso, mais osso que carne, é verdade, a quem eu devo tudo que sou. Tá certo que um moleque de favela de dez anos ainda não é lá muita coisa, mas mesmo essa pouca coisa que eu acho que sou eu devo ao Deco. Foi com ele que aprendi a jogar bola, a empinar pipa, a construir carrinhos de rolimã e a gostar de gibis. Na verdade, acho que aprendi a gostar de gibis antes mesmo de aprender a ler. Lembro que a primeira sílaba que consegui soletrar foi a de uma historinha do Chico Bento que ele trouxe da escola, e até hoje o Deco diz que eu ainda falo errado por culpa daquele gibi. Meu pai sempre foi um zero à esquerda, sabe aquelas pessoas que não têm a menor capacidade de ter um filho? Pois então! Minha irmã mais velha, bem, dela é melhor nem falar e mamãe tinha tanto trabalho pra dar conta que não sobrava lá muito tempo, e depois que meu irmãozinho nasceu, então, aí é que o tempo dela sumiu de vez. Então, só me sobrou o Deco e o Deco sempre esteve lá quando eu precisei e nunca, nunquinha mesmo, me deixou na mão. Nem quando eu tomei a primeira surra na rua ou quando fiquei de castigo na escola e mamãe ficou fula da vida ou quando ela e o pai saíam no tapa e eu ficava sem saber o que fazer e começava a chorar. Era sempre o Deco que tava lá, do meu lado. Ele fez mais um movimento com o treco sobre os ombros e parou de repente, de frente pra mim. Me encarou e lançou um sorrisão todo contente, e só então eu percebi que a música tinha desaparecido, que os outros ruídos tinham aproveitado a brecha pra retomar seus lugares e que a vila pareceu voltar à vida de novo. Aquela vida chata e pobre de todo dia. Eae, muleque. Que tá fazendo segurando a parede? Ele colocou uma espécie de miniviolão sobre a mesa, deu a volta na sala-quarto-cozinha minúscula e me deu um cascudo, como sempre fazia quando me via. Fiquei parado, olhando pra ele e pro pequeno violão, sem saber exatamente o que fazer. Ele voltou pra junto da mesa, pegou uma caixa preta do chão e guardou o violãozinho nela, acomodando uma vareta curta em algum lugar que não consegui ver. Gostou, véia? Perguntou ele, e minha mãe demorou quase tanto quanto eu pra esboçar qualquer reação. Finalmente ela soltou um É lindo, filho, se levantou depressa e correu pra pegar o Nego que tinha acabado de abrir o berreiro no berço.  Acho que ele também não gostou da música ter acabado. Me acheguei devagar e dei a volta na mesa, parando de frente pro Deco. Fiquei com aquela cara de o-que-é-isso e ele, meio que adivinhando minha pergunta muda, me disse que aquilo ali era um violino, um dos quarenta e tantos instrumentos que uma empresa que não consegui guardar o nome tinha doado para a ONG Somos Favela, uma das muitas que atuavam na nossa comunidade, mas a única que mantinha uma escola de música. Eu fui um dos escolhidos pra ficar com um deles, ele me disse, todo orgulhoso, pondo o estojo sobre as costas. Tou indo ensaiar, muleque. Depois que terminar as tarefas, passa lá na SoFa que te apresento pra galera. Ele despenteou ainda mais meu cabelo, berrou um A benção, mãe? e saiu porta afora sem esperar resposta, até porque o choro estridente do Nego não ia deixar que ele ouvisse nada mesmo.

[...]

|Literalismos| 1000 Universos

O Café de Ontem, site do grande Jr. Rocco Cazeri, liberou esta semana o número 4 de sua revista digital de FC&F, a 1000 Universos. 


Nessa fornada, a revista traz contos de Chico Pascoal, Marcelo Augusto Galvão, Lucas Lourenço, Georgette Silen e yo. 

Rogai por Vós, conto que abre a revista, é uma continuação direta do A Última Prece, terror mezzo psicológico que saiu no número 4 [coincidências, pois!] do Projeto Paradigmas, lançado pela Editora Tarja lá pelos idos de 2010, e acompanha o segundo dia na “vida” de um demônio nada convencional, além de suas tentativas de lidar com sua nova condição. 

Este conto é minha segunda incursão no gênero [embora, para este, tenha maneirado no psicologismo e trabalhado mais a interação humorística entre duas personagens], então, digam lá o que acharam. 

Ah, ia me esquecendo do principal: a revista é totalmente grátis, só clicar AQUI e baixar. 

Boa leitura!
 

|Literalismos| Com quantos livros se faz uma biblioteca?

No início de janeiro recebi um e-mail bem interessante, além de inusitado, em forma de pedido de ajuda de um professor de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Preocupado com o acesso dos alunos à literatura, o Profº. Antônio Gimenez criou um projeto de incentivo à leitura e começou uma cruzada pessoal para revitalizar a bastante combalida [palavras dele] biblioteca da Escola Municipal Amador Bueno, em Ipaussu, cidadezinha super charmosa que fica a cerca de 400 km de São Paulo.

Com o nome de “Acervo moderno, aluno leitor - uma parceria com autores nacionais”, o projeto do Profº. Antônio pretende criar uma ponte entre os alunos do ensino fundamental e médio e o que de novo está sendo produzido em matéria de literatura. Com a ideia pronta e a cara de pau digna daqueles que realmente fazem acontecer, ele começou a entrar em contato com vários escribas nacionais, especialmente aqueles da nova safra de fantásticos, me included!

Em conversa por e-mail, ele me confessou uma coisa: “como professor, valorizo muito a biblioteca e a leitura como maior meio do aprendizado. É difícil despertar o gosto pela leitura em uma criança e/ou adolescente com livros cuja linguagem e temas não lhes interessam ou são muito fora de sua realidade. E, infelizmente, este é o repertório de livros que temos”.

Não sei se pela beleza do projeto, pela ousadia em levar essa nova literatura para dentro da escola ou por sentir que poderia ajudá-lo de algum modo, resolvi empreender minha própria jornada em prol da meninada de Ipaussu.

Então, pus manos a la obra! Entrei em contato com amigos, escritores, editores e apreciadores de FC&F, apresentei o projeto do Antônio e, também na maior cara de pau, pedi que me ajudassem a angariar o máximo possível de livros, entre seus próprios escritos e os de outrem, para auxiliar na revitalização da biblioteca e introduzir a meninada ipaussuense no mundo da literatura fantástica. E, olha, devo confessar que fiquei surpreso e feliz com o retorno. Entre o finalzinho de janeiro e durante todo o mês de fevereiro, recolhi os livros doados e, na segunda quinzena de março, marquei uma visita à Ipaussu.

Livros devidamente encaixotados, endereço conferido e GPS pronto, lá fomos nós, eu e o Everson Probst, conhecer os mais novos — e ávidos — leitores de ficção e fantasia nacional. Cerca de quatro horas, vários restaurantes Graal estrategicamente localizados do OUTRO lado da rodovia e um pão na chapa que deveria ter a idade de Nóe depois, chegamos a Ipaussu e, como de praxe, me perdi antes de conseguir chegar à escola. Enquanto rodava pela cidade, encontrei uma senhorinha muito simpática — e com um sotaque lindo — que me indicou o caminho até a praça da cidade e, nas duas voltas que se seguiram até que eu me localizasse, ainda demos de cara com um bando de capivaras ao redor de um lago que era o prefeito convite pra gastar horas e horas de puro ócio.  

Na escola, a recepção não poderia ter sido melhor, começando pela Nena, a cuidadora da escola, que já estava nos esperando na porta com um sorrisão de Meu Deus, à cordialidade da Erlana Rodrigues, a diretora. Isso sem falar no café fresquinho e no bate-papo que se seguiu com Ângela Maria Gianetti, Ana Vilma Berti e Vilma Moraes, as responsáveis pela biblioteca, e com o Profº. Antônio! Depois de conhecer a escola e a biblioteca, que já conta com um expressivo acervo de novos autores, os alunos foram reunidos no auditório e lá fui eu falar um pouco sobre literatura e leitura, além de minha experiência pessoal como escritor de fantasia. Olha, já passei por muita coisa desde que me meti a escrever, mas tenho que confessar que encarar quase 100 crianças ávidas por saber do que é feito um escritor não é tarefa fácil. No fim, acho que me saí bem e o bate-papo seguiu animado, com um pergunta daqui, uma brincadeira dali, uma lista de leituras acolá e, o mais importante, o incrível interesse das crianças por conhecer e devorar cada livro que foi doado.

Aliás, por falar em livro e em doação, vai aqui o meu mais que obrigado a Alfer Medeiros, Amanda Reznor, André Z. Cordenonsi, Christopher Kastensmidt & Devir Editora, Cláudio Brites & Terracota Editora, Dennis Vinícius, Eduardo Bonito & Editora Literata, Everson Probst, Felipe Castilho, Fernando Salvaterra, Flávio Vicentin, Georgette Silen, Gerson Lodi-Ribeiro, Leandro Schulai, Nelson Magrini, Richard Diegues, Sergio Pereira Couto, Sumaya Sarran, Tiago Tizot & Arte & Letra e Walter Tierno. A contribuição de vocês garantiu cada riso e cada promessa de leitura da meninada de Ipaussu.

Ah, e sobre a pergunta do título, realmente não saberia dizer qual a quantia exata [ou se há uma quantia exata] para formar uma boa biblioteca, mas creio que 364 livros [o total que consegui arrecadar e doar à escola] já seja um bom começo.

O Profº. Antônio me confessou que até agora o projeto “Acervo moderno, aluno leitor - uma parceria com autores nacionais” conseguiu arrecadar algo em torno de 1000 livros. Um número excelente, sem dúvida, mas que pode aumentar ainda mais com sua doação.

Então, se você tiver algum [ou vários] livro[s] e quiser doá-lo[s] à biblioteca da Escola Amador Bueno, basta enviá-lo[s] para o endereço abaixo ou, então, faça como eu: pegue alguns quilômetros de estrada e vá bater um papo com a meninada e entregar o livro em mãos. Garanto que isso vai deixar uma penca de rostinhos muito felizes!

E.M. Amador Bueno
A/C: Prof. Antônio Sancho Gimenez Macedo
Praça Dr. Raphael de Souza, 270 - Centro.
CEP: 18950-000
Ipaussu-SP.
Aluno da escola municipal Amador Bueno, em Ipaussu.

Alguns dos livros doados à biblioteca.

Sessão de autógrafos improvisada.

Mais livros! 364 no total.

Eu, alunos da Amador Bueno e, mais à esquerda, Antônio Gimenez, Erlane Rodrigues, Angela Maria Gianetti e  Lú Ramos

Eu e Maria Carolina que, segundo fontes seguras, é uma das frequentadoras mais assíduas da nova biblioteca.
Almoço e excelente bate-papo pra encerrar a visita a Ipaussu.

Mas, afinal, pra que serve este blog?

Aqui será o lugar onde vou falar das coisas que gosto: literatura, HQs, teatro, cinema... trocar ideias sobre cultura e arte, sobre projetos e sonhos, ou seja, um espaço onde eu possa dar minha opinião intrometida!